Olá amigos internautas estava quase me dando por vencido. Afinal não vinha nenhuma inspiração que pudesse reverter tal marasmo intelectual. Então a segunda feira tinha começado a mil por hora; quando pinço de alguma fala de um dos meus clientes tal assertiva: “NINGUÉM VAI TE AMAR COMO EU”. E de modo repentino minha memória dava sinais de que a mesma me soava familiar; ou seja, havia ouvido isso em outros atendimentos e fora do setting analítico também. Na verdade muito melhor do que escrever algo do nosso cotidiano é ler o que reconhecemos como familiar. Então fui tomado por uma sensação de alívio momentâneo; pois afinal o tema tinha tomado forma. Na verdade essa frase tem época e data pra acontecer. A mesma não é ouvida assim sem mais nem menos. Quase sempre ela é dita quando há uma assimetria de interesses; ou seja, quando alguém sente que está prestes a ser deixado pelo companheiro. Numa tentativa desesperada de dar uma sobrevida à relação que está desgastada e em crise. Na verdade quem diz tal frase se autodenomina conhecedor da natureza do outro, estranhamente ele se permite assegurar que ninguém mais presta. Ou que não há nenhuma pessoa no mundo que reúna as qualidades ora propagandeadas. Nessa etapa é como se ele jogasse confetes em si mesmo. Uma espécie de resquício do narcisismo infantil. O pensamento mágico funciona como um oráculo; na medida em que propõe profetizar sobre o futuro. Na verdade muitos que dizem tal frase acabam entendendo que é um favor estar na relação. Na verdade esse mecanismo esconde uma insegurança de ficar só; na verdade a frase poderia ser dita a avessa da seguinte forma: “tenho tanto medo de nem você mais querer ficar comigo”; pois tenho dúvidas se sou mesmo interessante e merecedor de ser amado. Na verdade a projeção se faz presente quando coloco no outro coisas que dizem respeito A MIM. É muito comum numa relação uma das pessoas fazer tudo pelo parceiro não por amor; de modo geral muitos fazem tudo por medo; ou seja, quando faço tudo e não deixo o outro andar com suas próprias pernas acabo sabotando a capacidade do outro acreditar em si mesmo. Então ser “bonzinho” é conveniente na forma de dominar subliminarmente o outro, logo se cria uma dependência que faz eu realmente ficar em dúvida se é capaz. Às vezes algumas clientes dizem “fulano é tão bom! Será? De modo geral quando ouvimos a frase “ninguém te amará como eu” a emoção tangenciada é: “ninguém se sacrificará tanto por você como eu”. Então na verdade a idéia do amor ser um sacrifício, uma dor acaba confundindo os apaixonados. Enquanto amar deveria ser promover o crescimento integral da pessoa e para isso a liberdade é condição inegociável. E não será estranho se nessa lógica do amor emoldurado pela dor eu pedir também que ele se anule; ou seja, que ele fique comigo pelo medo. Então temos várias pessoas que reagem a tal frase pensando: Tenho medo de me arrepender; de não encontrar alguém que me faça feliz ou alguém que se sacrifique por mim. Está montada a equação paralisante da neurose: “amo logo devo sofrer” e o termômetro disso é a emoção do medo. Então com certeza ninguém tem a capacidade de amar igual ao outro; cada amor será diferente; cada começo único, mas nem por isso melhor ou pior apenas diferente.
Leia mais...Cadê a garrafinha de 600ml?
Parece que foi ontem; quando me aventurei a escrever artigos de psicologia tinha uma ideia de que deveria escrever temas profundos; talvez como uma defesa rudimentar da insegurança própria de uma nova fase da vida. Hoje vejo que as amenidades; também tem o seu espaço no cotidiano urbano. E é contando com a complacência de meus amigos internautas e com o caráter fugaz do tema que espero que o senso crítico de vocês esteja combalido pela própria natureza pueril do assunto e com isso me safar minimamente dos olhares dos leitores mais sóbrios e sérios. Confesso a vocês que me senti como marido traído; estava ali como de costume a procurar a minha tubaína; nos dias atuais fica a garrafinha de 600 ml que era adereço garantido em qualquer mesa de restaurante. De maneira abrupta e sem nenhuma polidez fui informado pelo rapaz que parecia ser o gerente do estabelecimento que o meu pedido não poderia ser atendido. Ele chamou minha atenção por não estar consciente de que não havia mais tal opção de garrafa de refrigerante. Ele me alertou de modo assertivo que agora só havia o de 500 ml. Tudo bem que não tenho visto tanta TV e tenho andado meio apressado; mas comecei a me questionar até que ponto a minha alienação não estava de mãos dadas com uma senilidade precoce. Será que tinha me esquecido de tal informação; foi quando minha dúvida foi silenciada de maneira severa pelo resto de lucidez daquele dia. Realmente não sabia e nem fora informado que tal mudança iria acontecer; liguei para um amigo meu que se orgulha de ser bem informado e antenado. Pedi a ele para desencargo de consciência de que minha intuição estava certa. Naquele dia parece que meu hipotálamo ficará adormecido temporariamente por tal repreensão do dono do estabelecimento; minha fome tinha ido embora antes de terminar o almoço. Fui para casa; e fiquei a pensar naquela questão; o que de fato aconteceu com a garrafinha de 600 ml; parecia que fora feita exatamente para um casal; sempre acreditei que o responsável por tal embalagem fez a mesma para alguém que não está só. Ou para alguém que espera por alguém; sempre achei que pedir uma garrafinha de 600 ml era uma forma de dizer- eu tenho alguém. E agora! Tinha a certeza que 500ml; parecia me lembrar aquelas quantidades de xarope que era obrigado a tomar na minha infância. Não me lembro de nenhum comunicado oficial; nenhum plebiscito; nem sequer uma nota num jornal; daquelas tipo obituário; na qual consta o dia de nascimento e falecimento; nem mesmo uma missa de 7 dia pela morte da garrafinha de 600 ml. Me senti invadido por uma sensação de orfandade. Como pude não me despedir da garrafinha de 600 ml; como poderia contar para meus netos que um dia existiu uma embalagem que era ideal; nem mesmo uma foto para deixar de papel de parede no meu computador. A sensação foi de culpa e remorso; a finitude da garrafinha de 600 ml havia mexido com meus medos mais remotos; percebi que estava envelhecendo. Comecei a pensar que a culpa era minha quem sabe podia ter feito algo para evitar o confisco dessa embalagem. Mesmo que não conseguisse impedir a era da garrafinha de 600ml podia ter tempo e amealhar algumas e guardar e daqui a um tempo quem sabe vender por um bom dinheiro para algum colecionador e amante dessas embalagens. Ou talvez para mostrar para meus netos que houve uma época que as coisas eram diferentes. E quem sabe não poderia colocar lá alguns lps dos rock dos anos 80; e talvez coubesse até aquele atari; e porque não deixar lá a garrafinha de 600ml.
Deixando de lado esse meu saudosismo; a verdade é que todos já sentiram falta da garrafinha de 600ml; só que isso não pode ser falado; vivemos numa época que devemos nos portar com se fossemos adultos; e esses não falam de amenidades só conversam de coisas sérias; tal como economia; política; gastronomia; relacionamentos. Acredito que as pessoas sentem uma vontade enorme de falarem das coisas invisíveis; coisas pequenas que se agigantam no nosso íntimo. Só que para parecermos adultos devemos seguir a cartilha de pessoas maduras e não infantis; teimamos em fingirmos que as amenidades não são mais importantes. E nesse esforço hercúleo adoecemos e nos neurotizamos. Nesse afã de encontrar respostas sobre o porque do desaparecimento da garrafinha de 600ml; continuei minha teoria conspiratória seria 600 um número que trouxesse mal agouro. A verdade meus amigos que devemos ficar atentos as coisas que estão indo embora; na verdade a nossa percepção deve estar atenta aos detalhes. A verdade é que a morte nos visita de tempos em tempos; ela testa nossa capacidade de percepção; hoje você não nota que a sua esposa esta usando um brinco; amanha você não percebe que ela trocou o batom; amanha a solidão e a tristeza em seu rosto não é notada; e quando você menos espera o relacionamento afetivo já se despediu de você sem muita delonga; o entusiasmo pelo trabalho vai sendo asfixiado pelo tédio.
É assim mesmo quando menos esperamos a vida vai nos confiscando amenidades; detalhes; o vigor de outrora vai dando lugar a um ritmo menos acelerado; a vitalidade que vai se esvaindo; Então a vida dando sinais que nada fica como está; a garrafinha não está mais aí; você também não é o mesmo de ontem; nesse jogo de perdas e ganhos é que se processa a vida. Enquanto não volta a garrafinha de 600ml; observe se a sua vida não está faltando algo. Quem sabe não lhe confiscaram 100ml de desejos; entusiasmo; motivação ou coragem e esse pouco pode fazer toda a diferença. Então exija tudo da embalagem da vida que você tem direito; não aceite que por razão alguma os detalhes sejam confiscados.
Dr. Marcos Bersam
Psicólogo Clínico
Leia mais...É sempre a mesma coisa não demora muito alguém fala: Eu desisti não estava dando certo! Seja em relação a um trabalho, um relacionamento ou uma idéia. De modo geral a empolgação de outrora cede lugar a prostração e ao desanimo. Na verdade fica a dúvida qual a linha que demarca a fronteira entre a sensatez de jogar a toalha e a falta de fé ou motivação para continuar. Na verdade muitos desistem dos sonhos e pensam que fracassaram; pois assumir um fracasso não é tarefa fácil, ou seja, desistir torna-se um atalho para não ser estigmatizado de fracassado. Imagino que vocês vão concordar que os fracassados de hoje são os desistentes de ontem. Afinal primeiro devemos definir o fracasso; enfim de que fracasso estamos falando? Do monetário, do afetivo, do profissional; espiritual ou existencial. De modo geral o sucesso numa área convive com o fracasso em outra. Muitas mulheres me dizem no consultório que são realizadas profissionalmente; inteligentes, letradas e mesmo assim vivem em relacionamentos miseráveis. Hoje em dia parece que o objetivo maior é o sucesso do ter; ou seja, acumular, disputar e esmagar o concorrente é a didática dos tempos atuais. Então o materialismo cada dia aumenta a legião de fracassados de plantão e uma vez amargurado com sua desistência o sujeito se vê compelido a arrastar mais alguém para comungar o mesmo sentimento de derrota e insucesso. Afinal a dor sentida junta isenta nossa culpa e responsabilidade sobre a inércia adota por nós. Enfim podemos dizer que definimos fracasso pela via da comparação; ou seja, o outro é a minha baliza é o indicador de quanto tive de sucesso. Com isso quase sempre adotar essa filosofia leva você a desenvolver a inveja e não ter como ponto de parâmetro você. A inveja joga um anestésico em sua alma. Podemos dizer que entorpecida essa última fica a deriva alimentada pela raiva e frustração. Acreditamos fracassados muitas vezes por estarmos alienados pela vontade do outro. Vejo pessoas que desistem porque não tem seus sonhos, apenas buscam o que lhe disseram ser mais sensato e oportuno. Então estudo e faço um curso superior pro meu pai, estudo porque todos na minha família estudaram, permaneço casado porque tenho filhos. Os fracassados de ontem são forjados na severidade da educação familiar dos dias atuais; onde o improviso não tem lugar e o erro é satanizado pela pressa capitalista de que tempo é dinheiro. Na verdade antes de acontecer o fracasso somos tangenciados pelo marasmo, pela falta de entusiasmo e pela ingratidão. E nessa confusão de conceitos vejo muitas crianças sendo educadas pensando que ter sucesso é ter fama; olha a confusão está formada. A fama pode vir a um preço muito alto; mas o sucesso não necessita da fama. Acredito que todas as pessoas bem sucedidas entendem os pequenos progressos, as conquistas singelas. A pessoa de sucesso não quer romper uma linha de chegada; pois muitas vezes isso é o primeiro passo para a aposentadoria existencial compulsória. E você pode atingir a fama sem ser bem sucedido. A fama hoje quase sempre pode ser financiada pelo cartão de crédito já o sucesso tem a ver com sentido, com o propósito que cada um atribui a sua vida. O sucesso não compactua com inutilidade existencial. O sucesso não é medido pela conta bancária ou através da velocidade que se troca de carro. A busca da fama obsessiva muitas vezes é para aplacar o complexo de inferioridade e a sensação de menos valia. Sentir-se invejado alimenta a alma já enferma ha tempos. Na verdade somos convidados a sempre imaginarmos que estamos a um passo do fracasso por não termos a fama. A fama é a vontade infantil de ser reconhecido; seja através da face book; seja através da lipo; ou seja, pela prótese de silicone recentemente financiada. E quem sabe que aí entra o conceito de perseverar que é pouco difundido; não somos ensinados a ter persistência. Temos que entender que esse conceito faz você trabalhar sem se preocupar com o resultado imediato. Na verdade a pressa de modo geral não permite perseverar. Quando temos pressa entendemos que não chegar no tempo que imaginamos a um objetivo é fracassar. O fracassado tem olhos para o que falta; ele na verdade carrega consigo a ingratidão renitente. O fracassado de plantão não é muitas vezes abençoado por ele amaldiçoar-se a si mesmo sem a intencionalidade do silêncio de sua insatisfação permanente. Então quando você não está ansioso e quer dar o melhor de si e empreender forças para lutar um pouco mais independente do tempo traçado mentalmente você consegue verdadeiros milagres. Então aquela velha estória já faz tanto tempo e nada; tenho que me formar até tantos anos; tenho que passar no vestibular; tenho que vender essa quantia em tanto tempo; tenho que casar até tantos anos; tenho que ter filhos até tal época. E como já dizia o velho Freud “se não quiséssemos ser tão bons seriamos melhores”. Quando fazemos o dever de casa diário e esquecemos momentaneamente que temos que ter sucesso; que precisamos da fama; que necessitamos de resultados a vida conspira a nosso favor. Na verdade muitos que chegaram ao topo são os que fracassaram momentaneamente; mas reuniram forças e persistiram um pouco mais. O fracasso pode ser pedagógico e nos fazer crescer, amadurecer, reparar o equivoco. Na verdade pessoas persistentes não são insistentes; pois essas por sua vez são tolas e não usam a capacidade de parar um pouco e refletir. Costumo falar o seguinte a diferença de insistente e persistente é a seguinte. Imagine dois amigos pescando o insistente quer pegar peixe num determinado local mesmo não tendo êxito. Já persistente elege outro ponto; analisa, contorna o rio, lança a rede a noite, providencia o barco para ir para águas mais profundas. O rio é a vida; precisamos saber explorar as margens; as águas profundas. Entenderam? Os insistentes não demoram estufar o peito e dizerem: Eu tentei! Eu fiz tudo! A vida foi ingrata comigo! O insistente também se torna um fracassado que tem até um orgulho neurótico de sua derrota. Na verdade ser persistente às vezes é parar e mudar a estratégia; deixar o orgulho e a soberba de lado. O persistente não busca o sucesso por isso não encontra a derrota; não se incomoda com a fama sabe progredir no anonimato. Ele não desiste porque se satisfaz com conquistas singelas. Finalmente podemos dizer o seguinte : A chance de você ter desistido ou insistido e muito maior do que a ter fracassado.
Dr.Marcos Bersam
Leia mais...Não reclamem de mim, nem me acusem de catastrófico ou digam que sou apocalíptico. A verdade é que, a cada dia, nos jogam uma bomba; o rosário deescândalos no Congresso; a nova administração municipal, que, até agora, não mostrou a que veio; a crise econômica, que se mostra renitente; as brigas de gangues e vândalos pelas ruas do bairro; e, agora, a gripe suína.
Acredito que a maioria das pessoas desconhece a diferença entre medo e ansiedade. Diante de algum perigo existem duas opções: ter medo e fugir, ou enfrentá-lo. Sem dúvida é mais fácil lidar com o medo. Por exemplo, se tenho medo de andar de elevador, basta me afastar dele para resolver o problema. Evitá-lo é o antídoto mais eficaz. Já a ansiedade é um perigo iminente, pois nos sentimos impotentes e não conseguimos nos controlar. Não depende de nós e, por isso, muitas vezes, sofremos por antecipação. É o caso de um estudante, quando vai prestar vestibular, ou de alguém que vai tirar a carteira de motorista. Ambos serão submetidos a situações de ansiedade, mas, caso tentem fugir, não alcançarão seus objetivos.
É assim que está acontecendo com a gripe suína. Estamos impotentes. Fico imaginando de onde ela viria se chegasse aqui. Seria de modo pouco original, pelo litoral, passando pela BR-040, os pedágios habituais e, quando chegasse a Simão Pereira, ligaria ou mandaria uma mensagem dizendo que estava próxima a Juiz de Fora. Mas, pensando bem, o vírus não deve ter carteira assinada e, muito menos, dinheiro para arcar com as taxas abusivas, os pedágios. Chegaria pelo aeroporto da Serrinha, já que o de Goianá não tem previsão para entrar em funcionamento. Quem sabe, através de um benfiquense, que passara a lua-de-mel em Cancun, ou de alguém que recebeu a visita de um parente mexicano. Só sei que tenho a sensação de estar assistindo a um filme de Steven Spielberg, no qual o planeta é atacado por alienígenas e, na primeira esquina, alguém é abocanhado por uma criatura abominável.
Então, estou na sacada da minha casa e vejo o lixo espalhado pela rua, por causa da greve na Prefeitura. Na esquina, linchamento. Ligo a TV e tenho a notícia de que, em Minas, foi confirmado o primeiro caso de gripe suína. Então, resolvi ligar para um amigo e passar o final de semana em sua granja, na tentativa de fugir de todas as ameaças. Ele se prontificou a emprestar, mas me alertou para que tomasse cuidado, pois, nas imediações, fora constatado um foco de dengue. Agradeci e falei para mim mesmo:
Seja o que Deus quiser!
As ferramentas ali no chão quase conseguiam falar de sua exaustão e cansaço de um dia de muita labuta; os ponteiros do relógio já alertava que o expediente daquele dia podia ser encerrado sem maior cerimônia. O silêncio daquele momento só foi cortado pelo barulho da água que teimava em lavar com esmero as ferramentas para o dia seguinte. De forma abrupta interrompido por um comentário inesperado. Olhe lá no alto; aonde? Lá longe aquela casa do lado esquerdo da antena de celular; depois de um pequeno esforço para situar todos conseguimos ver o que ele nos apontava; tratava-se de uma casa sem reboco que exibia suas paredes emolduradas por andaimes. Tratava-se de uma casa em construção a aproximadamente uns 600 metros; nossa posição privilegiada permitiu que o observador atento apontasse de imediato o defeito no alinhamento da parede; ou seja, podíamos ver de longe como a parede recém erguida estava fora de prumo ou esquadro. E ele assegurou certos defeitos são vistos só de longe. E daí pensei: é verdade vejo sempre isso no meu consultório. Tal como a parede desalinhada chamou a nossa atenção; é bem provável que o dono daquela obra não tenha notado tal falha; pois para olhar com nossos olhos o mesmo teria que se colocar no nosso ponto de vista. Então muitas vezes nos relacionamentos familiares ou conjugais não enxergamos as discrepâncias incoerências de nossas condutas. Então quando estamos mergulhados na situação ficamos embotados em nossa percepção; dizem que o pior cego é que não quer ver; não acredito que o verbo mais adequado seja querer; mas sim poder. Querer implica responsabilidade; desejo e vontade já poder é uma condição que independe da razão; ver sem se esforçar talvez seja o ideal e para isso nada melhor que nos afastar do defeito. Quando nos colocamos distante o defeito sinaliza para nós de modo escandaloso. Ou seja, como querer ver algo que não podemos; não temos condições de ver algo que muitas vezes nos machuca; remete-nos a nossa covardia; injustiça ou falência existencial. Então é verdade precisamos nos distanciar; e isso reflete a necessidade ora de permitir o tempo nos proporcionar fazer outra leitura; ou seja, com o passar do tempo temos condições de rever nossos erros com mais eficiência; então o tempo nos oferece óculos com lentes mais possantes para vermos aquilo que não enxergávamos. Só mais tarde entendemos que nossos filhos foram poupados do senso de responsabilidade; que aquela relação já não estava satisfatória; que fomos omissos quando podíamos ser diferentes. O psicólogo é o profissional que se propõe ver de fora; o terapeuta é aquele que vê onde você não consegue; faz pontuações; uma releitura do que lhe parece familiar e, portanto perfeito. Interroga; questiona, aponta; acalenta; ampara ; encoraja; e nessa ciranda de condutas faz o sujeito experimentar se ver diferente . Quando temos problemas teimamos em pedir conselhos dos que estão tão envolvidos quanto nós na situação. E ai a ajuda é tendenciosa; preconceituosa; e interesseira. Então quando vemos de fora; vemos o conjunto; a harmonia; ou falta dela no todo. O desajuste e a falta de equilíbrio chega a doer nos ouvidos que muitas vezes vêem o que os olhos não enxergam. Ser psicólogo é convidar o outro e se aventurar a ver sob um novo prisma; a terapia te convida a sair da obra; pois afinal somos uma eterna obra inacabada; pois só de lá e um pouco mais afastado conseguimos ver melhor; tal como o pedreiro no seu comentário inocente deixou escapar uma grande verdade psicológica também: De longe da pra ver melhor .
Marcos Bersam
Psicólogo clínico
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